Festival Tomarrock – A diversidade musical independente do extremo norte brasileiro
Por Humberto Finatti
A quarta edição do festival Tomarrock agitou Boa Vista, capital do longínquo e queeeeente Estado de Roraima (no extremo Norte brasileiro, pra você que fugiu da aula de geografia nos ensinos fundamental e médio, Mané!), no último finde. E o portal Dynamite e o blog zapper estiveram por lá, acompanhando tudo de muuuuuito perto, graças ao apoio da turma brava do coletivo Canoa Cultural, que organizou o evento.
Na verdade o Tomarrock – como todo evento cultural que se preza, atualmente – foi bem mais que apenas um festival dedicado a mostrar os novos talentos (alguns, nem tão talentosos assim) da cena musical independente roraimense e amazonense. Antes do festival em sim, houve uma intensa programação durante toda a semana passada, com palestras, debates etc.
E dentro desta programação extra musical, uma das mais bacanas foi o debate ocorrido no teatro do Sesc Boa Vista, na quinta-feira passada, onde jornalistas gestores culturais locais colocaram na mesa suas impressões e opiniões sobre Comunicação e Cultura na era digital. O autor deste blog participou do debate, que também contou com a lenda e figuraça Sandro Corrêa, jornalista rocker de Manaus já com anos de atuação na área musical e cultural, e que é conhecido como o “Tony Wilson” da Amazônia.
E no final de semana o rock rolou no ginásio do Sesc local, claro. Em uma cidade já quente por natureza o ano todo a temperatura subiu ainda mais dentro do ginásio, com o público sempre se mostrando total receptivo ao que rolava no palco, em um line up dominado nas duas noites por bandas locais e de Manaus (com exceção dos headliners Dr. Sin, de São Paulo, que encerraria a primeira noite, mas tocou antes por questões de agenda apertada; e For Fun, do Rio De Janeiro, que fechou o festival já na madrugada de domingo).
Destas, na sexta, o repórter infelizmente perdeu as apresentações das duas primeiras (já que Zap’n’roll foi “esquecido” no hotel pela van que transportava jornalistas, rsrs. Um problema menor, plenamente desculpável e que pode ocorrer mesmo em um festival onde há zilhões de tarefas sendo executadas pela equipe de produção ao mesmo tempo.
Enfim, o blog acabou indo de táxi para o ginásio e conseguiu acompanhar na boa o restante das gigs da noite), Nicotines e Johnnny Manero. A primeira, liderada pelo jornalista manauense Sandro Nine, faz do indie/grunge guitar dos 90’ sua razão de existir. E a Johnny, já um dos grandes nomes do rock de Boa Vista, prefere trafegar (com competência e elegância) pelo classic rock setentista.
Ainda na primeira noite, a Garden mostrou bom apelo pop oitentista (relembrando algo de rock melancólico à lá pós-punk inglês e Legião Urbana), Iekuana mostrou seu já consagrado talento local para fazer um interessantíssimo sincretismo entre levadas rockers e ritmos locais, e o Nekrost fechou tudo com doses concentradas de porrada metal.
Antes das duas o veterano Dr. Sin (que seria o headliner mas como tinha horário de vôo marcado para voltar a Sampa, onde faria show no dia seguinte, o que provocou o “adiantamento” da apresentação do trio) mostrou que continua mandando um eficiente hard/classic rock ao vivo e em disco, mesmo já tendo duas décadas de existência. Não é à toa que os irmãos Buzic formam uma das melhores seções rítmicas de todo o rock brasileiro.
O sábado foi muuuuuito interessante, do ponto de vista estilístico. Houve desde o rap/hip hop de Arthur De Jesus (com rimas ainda simples mas bem encadeadas na base instrumental) até o escroto e já decadente emocore do carioca For Fun – leia-se For Shit. Entre um e outro, houve espaço para a boa presença instrumental e de palco da turma do AltF4, para a porrada sonora dos moleques do Ostin, e para o bom rock do Hopes. Mas sem dúvida alguma os dois mega destaques do sabadão – e que foram talvez os responsáveis pelos dois melhores shows de todo o Tomarrock – foram a Camarones Orquestra Guitarrística e a Jamrock.
A Camarones é o que o nome diz: uma orquestra de guitarras (mas meio que liderada pela baixista Ana Morena), sem vocais, fundada em Natal (capital do Rio Grande do Norte) e que já se tornou banda Cult no circuito indie nacional, graças à avassaladora potência de suas canções com melodias aceleradas e incendiárias. Já a roraimense Jamrock, apesar do nome, é um combo de… reggae. Yep, o ritmo jamaicano que (quase) todo brasileiro ama. Pois a Jamrock está em ponto de bala: fez uma apresentação com direito a naipe de sopros, e com uma pista quase cheia do ginásio cantando as músicas do grupo em coro.
Longe de trazer alguma novidade ao gênero, o que a Jamrock faz é reggae pop de alta qualidade (com ótimas levadas melódicas, arranjos caprichados e uma vocalista que é um tesão pós-adolescente) e com total apelo radiofônico e comercial. Com todo o respeito à Boa Vista, é uma banda boa demais para permanecer na cidade. Precisa descer correndo pro Sudeste e botar a mina de ouro pra funcionar.
Foi isso. O Tomarrock, em sua quarta edição, mostrou que a nova música independente brasileira possui qualidade e garra. E não possui fronteiras: ela está tanto aqui, em São Paulo (às vezes, nem está aqui) quanto em Roraima. Sorte de nós, fãs eternos do rock e do pop de qualidade.
*O jornalista Humberto Finatti viajou a Boa Vista (Roraima) a convite da produção do festival Tomarrock.















