Vaca Amarela mostra ótimos shows e estrutura invejável

Goiânia é uma cidade quente, muito quente, no sentido literal da questão metereológica. Não chove no Centro Oeste há mais de cem dias, a umidade relativa do ar por lá anda baixíssima e tudo isso torna o clima bastante difícil de suportar. Mas nada disso também tira o entusiasmo de uma capital que possui uma das cenas rockers mais agitadas do país – não é a toa que chamam a cidade pela alcunha “Goiânia Rock City”, ou a “Seattle brasileira”. E este entusiasmo pôde ser totalmente visto e comprovado durante as duas noites em que foi realizada a edição 2010 do festival Vaca Amarela, nos últimos dias 17 e 18 de setembro, na Estação Goiânia, região central da capital de Goiás. Foram trinta e quatro shows distribuidos em dois palcos enormes, com ótima estrutura de luz e som. Fora isso, o Vaca Amarela também deu show de organização: não houve atrasos na entrada das bandas no palco; o Estação Goiânia, além de ser um espaço gigante para abrigar o evento (com capacidade para cerca de 5 mil pessoas), ainda possui um estacionamento amplo e onde não havia dificuldades para entrar, sair e estacionar. E lá dentro havia de tudo, além de muito rock’n’roll: barracas de comidas típicas, de bebidas com preços camaradas, além de bancas para venda de camisetas, discos, cds, livros etc. O público foi um caso à parte no festival: compareceu em grande número nas duas noites, participou com vontade dos shows, aplaudiu todas as bandas (mesmo as que não mereceram isso) e ainda se mostrou bastante comportado, sendo que não houve registro de tumultos durante o evento. Ah, sim: como já é notório, a quantidade de mulheres gostosas no local era absurdo. Em Goiânia sobram gatas tesudas, rockers e loucas. Sempre foi assim por lá.

Mas vamos ao que realmente importa: o panorama que o Vaca Amarela mostrou da nova produção musical independente brasuca. E nesse aspecto, o festival contemplou praticamente todas as vertentes do pop nacional. Na primeira noite, por exemplo, além dos grupos locais que abriram a maratona, deu gosto ver a apresentação anfetamínica e pop/psicodélica do amapaense Stereovitrola, hoje seguramente um dos dez melhores novos grupos do indie rock nacional. Já Mersaut e a Máquina de Escrever fez jus às suas referências kafkanianas e mandou um set denso, calcado na dramaticidade das letras e do instrumental. Agora, surpresa mesmo foi a performance do grande trio instrumental gaúcho Pata De Elefante: sem vocais e contando apenas com a força de sua música, o grupo conseguiu atrair uma multidão para a frente do palco enquanto tocou, o que demonstra que já há sim plena receptividade para a música sem palavras no rock alternativo brasileiro. Depois do Pata, ainda rolaram ótimos shows do Terra Celta, da bizarríssima lenda que é o roqueiro gay e performático Edy Star, do local Umbando (atenção: este grupo que mistura samba, música de raiz goiana e rock num mesmo caldeirão fervente, é uma das melhores formações musicais que este repórter viu/ouviu nos últimos tempos, tanto que falo mais deles no blog Zap’n’roll) e do Lobão, que fechou a noite com um show repleto de hits oitentistas mas também dando espaço para canções mais obscuras de sua trajetória.

E se já havia muita gente na primeira noite, na segunda uma autêntica multidão invadiu o Estação Goiânia. Foi a noite do som garageiro e mezzo jovem guarda dos Inimitáveis (de Mato Grosso, outro nome que tem tudo pra se destacar na indie scene nacional nos próximos meses), do sempre eficiente punkabilly dos Gramofocas, da surpresa do glam e mega andrógino rock do pernambucano Johnny Hooker & Os Candeias Rock City (um grupo com uma bichaça louca e fodástica nos vocais, usando bota salto plataforma numa cidade onde o calor na madrugada superava os 25 graus, mais blusa branca de pantufas e que, saltitante no palco, perguntava pra galera “quem já fumou maconha hoje?”, além de cantar um dos bordões mais legais do festival: “pare de ser um rockstar!”) e do som pesado mas algo pop do Hellbenders, do metal extremo e from hell do Necropsy Room (nada contra esse tipo de som, a banda é boa e tal, mas eu sempre me pergunto quando vejo grupos nesse estilo: por que eles não mudam nunca? Por que os músicos tocam com o corpo curvado, como se fossem macacos em desespero, o vocalista canta como se estivesse cuspindo seu pulmão pela boca e o público fiel deste tipo de som é predominantemente masculino, machista, reacionário e ultra conservador? Para refletir…), do punk sempre abrasivo e engajado do Nitrominds e do thrash do Claustrofobia.

No meio dessa pancadaria sônica, quem se destacou foi o esperto e ótimo Johnny Suxxx e seus Fucking Boys, além do paraense Baudelaires. O primeiro já é gigante em Goiânia; com seu rock’n’roll de contornos hard e glam, e contando com duas backing vocals gêmeas e tesudas, Johnny fez o show de lançamento do seu segundo disco, “Zebra”, que saiu há pouco, e fez o povaréu cantar junto com ele as letras das músicas. Já o quarteto The Baudelaires talvez tenha sido a segunda melhor surpresa de todo o festival, depois do Umbando: cantando em inglês, com duas guitarras afiadíssimas e engendrando melodias algo melancólicas mas dançantes, o grupo exibiu doses concentradas de power pop sublime, Teenage Fanclub, Beatles e Weezer. Fizeram bonito em uma noite adversa ao som deles (onde o predomínio era dos sons mais porrada), e acabaram conquistando o público com um set impecável. Incrível que façam tão bem e curtam com tanta paixão power indie guitar pop morando em Belém.

Claro, tudo terminou com o rock machista, sexista e também conservador das Velhas Virgens. Há quem goste e veja graça no som da banda paulistana, que faz um rock’n’roll antiquado e calcado em um blues mezzo canhestro. Eu nunca vou gostar daquilo, ponto. Mas eles fecharam bem o Vaca Amarela, mantendo a atenção da galera até o final do seu set.

Enfim, foram duas noites que mostraram que a cena independente nacional continua produzindo ótimas surpresas musicais. Surpresas que hoje passam bem longe do eixo Rio-SP, onde a vergonha alheia é talvez a principal característica das novas bandas das duas maiores metrópóles do país. Infelizmente.

* No blog Zap’n’roll, com post novo no ar a qualquer momento, mais textos exclusivos sobre o festival Vaca Amarela, com destaque para o Umbando, de Goiânia, e os Baudelaires, do Pará.

* O repórter Humberto Finatti viajou a Goiânia a convite da produção do festival Vaca Amarela.

6 Respostas to “Vaca Amarela mostra ótimos shows e estrutura invejável”

  1. Interessante como um sexista reconhece o outro!

  2. [...] This post was mentioned on Twitter by Andro Baudelaire, Ariel Andrade, Delinquentes, Fósforo Cultural, Alana Dutra and others. Alana Dutra said: RT @JohnnyHooker_: Cobertura do Festival Vaca Amarela em Goiânia no site da Dynamite; http://tinyurl.com/272dhz3 por @ZapnrollFinatti ! Confere lá! [...]

  3. [...] This post was mentioned on Twitter by INIMITAVEIS, Mikhail Favalessa. Mikhail Favalessa said: Vcs já viram o que o Finatti falou sobre o #VacaAmarela? diz que gostou do @inimitaveis http://tinyurl.com/2ahgrou [...]

  4. Hanna Paulino disse:

    A Stereovitrola e o quarteto The Baudelaires mostram que o som do Norte quebra fronteiras…
    Limites geográficos não tem nenhuma ligação com o amor a música!!

    Parabéns pelo festival!!

  5. Aretlythite disse:

    oi gostei imenso o trabalho do teu blogue, parabéns! Eu também escrevo em blogues pois é muito satisfatório!
    Os meus tempos livres são escrever na net , e jogar poker online, ontem arranjei um dinheiro grátis para jogar casino online numa página, acho que o endereço seja este http://www.bestpokernodepositbonus.blogspot.com/ !
    se puderes pôe ferramenta de tradução na tua página!
    fica bem

Deixe um comentário